4. Funções parentais e adolescência na contemporaneidade: considerações a partir de uma ilustração clínica Descargar este archivo (4. Funções parentais e adolescência na contemporaneidade.pdf)

Roberta Araujo Monteiro1, Mônica Medeiros Kother Macedo2, Thomas Gomes Gonçalves3

Sigmund Freud Associação Psicanalítica, Porto Alegre/RS, Brasil

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS, Brasil

Resumen

La adolescencia es un momento complejo en la vida de un joven que se encuentra con intensas demandas psíquicas, biológicas y sociales que causarán transformaciones en su mundo intrapsíquico y en sus procesos interrelacionales. Con una comprensión que no puede entender el adolescente aislándolo del contexto en que vive, es fundamental situarlo frente a las demandas contemporáneas, reanudando elementos acerca del proceso de construcción del sí mismo. Es esencial hablar de la relevancia de la cualidad y de las condiciones de las funciones parentales también pasibles de influencias del actual contexto. Este trabajo propone una reflexión sobre el ejercicio de las funciones parentales y sus efectos en la relación con los adolescentes en el escenario actual. A través de presentación de elementos teóricos y de una ilustración clínica, se percibe que los dichos actuales de autocentramiento parecen hacer frágiles las relaciones y potencializar actos de desinvestidura y descuido parental.

Palabras clave: adolescencia, funciones parentales, contemporaneidad, psicoanálisis.

 

Resumo

A adolescência é um momento complexo do ciclo vital no qual o jovem se depara com intensas demandas psíquicas, biológicas e sociais que acarretarão transformações no seu mundo intrapsíquico e em seus processos inter-relacionais. A partir do entendimento que não se pode compreender o adolescente isolando-o do contexto em que vive, torna-se fundamental situá-lo frente às demandas contemporâneas, retomando elementos importantes relativos ao processo de construção do si mesmo. Nessa direção, é essencial abordar a relevância da qualidade e das condições referentes às funções parentais também passíveis de influencias do atual contexto. Esse artigo propõe uma reflexão sobre o exercício das funções parentais e os efeitos destas na relação com os filhos adolescentes no cenário contemporâneo. Através da apresentação de elementos teóricos e de uma ilustração clínica, percebe-se que os ditames atuais de autocentramento parecem fragilizar as relações e potencializar atos de desinvestimento e descuido parental.

Palavras-chave: adolescência, funções parentais, contemporaneidade, psicanálise.

Introdução

A Psicanálise, considerando o valor que atribui à singularidade dos processos intrapsíquicos, dedica-se a compreender os efeitos oriundos das transformações sociais, políticas e culturais nos campos intra e intersubjetivo. Ao lançar seu olhar interrogativo e reflexivo a respeito das importantes demandas atuais sobre o processo de construção psíquica, assim como ao abordar as modalidades de padecimento psíquico que daí podem advir, a Psicanálise reafirma sua vitalidade como teoria, método e técnica.

Discutir sobre a complexidade do processo de constituição do psiquismo implica ter como ponto de partida uma ideia não desenvolvimentista, ou seja, assumir a proposição de que o aparelho psíquico não está dado desde a origem da vida. Considera-se, dessa forma, o relevante papel desempenhado pelas experiências e conflitivas próprias às diversas etapas da vida, já que essa ampla gama de experiências terá uma importante contribuição no processo de constituição do psiquismo. A partir de tais considerações, afirma-se o nascimento de um sujeito psíquico a partir do encontro com o outro. A necessidade dos seres humanos de humanizarem-se na cultura faz com que a presença do semelhante seja inerente a sua própria constituição (Bleichmar, 2005). Este é um encontro inaugural sob vários aspectos e, como refere Bleichmar (2005),

“no outro se alimentam não somente nossas bocas senão nossas mentes; dele recebemos junto com o leite, o ódio e o amor, nossas preferências morais e nossos valores ideológicos. O outro está inscrito em nós e isso é inevitável” (p. 08).

Além de inevitável, esse é um encontro vital e necessário no processo de constituição de um sujeito psíquico. Sendo assim, as marcas decorrentes desse encontro trazem desdobramentos e efeitos distintos nas etapas do desenvolvimento, entre as quais está inscrita a singularidade da adolescência.

Durante a infância é ainda possível adiar encontros, atos e decisões, porém, na adolescência, esse adiamento não é mais possível. A adolescência marca uma diferença em relação à temporalidade, à sexualidade e à realidade. Nessa etapa da vida, as experiências têm como centro as problemáticas relativas ao próprio Eu, ou seja, na adolescência, o sujeito se depara com a inadiável exigência de rever o passado e preparar-se para o futuro, bem como assumir um papel mais ativo em relação a suas transformações (Rother Hornstein, 2006).

A adolescência é, portanto, um momento bastante complexo no ciclo vital, abarcando em si mesma a expressão de contradições inerentes à condição humana. O jovem se depara com novas conquistas e possibilidades de investimento num tempo futuro; por outro lado, enfrenta a necessidade de dar conta de intensas demandas psíquicas, biológicas e sociais que acarretarão transformações tanto em seu mundo intrapsíquico, quanto em seus processos inter-relacionais. Nessa etapa, não é mais possível manter os privilégios da infância e há um desejo de acesso às prerrogativas do mundo adulto; porém, essa transição não se dá de forma linear ou isenta de conflitos. Lerner (2006) assinala que a subjetividade diz respeito “à possibilidade que tem um sujeito de criar ao outro, ao mundo e a si mesmo” (p. 30). Nas palavras do autor, explicita-se o principal trabalho psíquico da adolescência: a partir de intercâmbios que fazem parte de sua história; trata-se agora de estabelecer os limites do si mesmo e o lugar do outro em seu mundo psíquico.

A adolescência é um momento da vida no qual são desfeitos, refeitos e construídos investimentos tanto em relação a si mesmo como aos outros. O mundo pulsional se vê diante de novos desafios e possibilidades; as vicissitudes dos investimentos estão atreladas às condições de elaboração e metabolização das intensidades psíquicas. A sucessão de ligações, desligamentos e religamentos psíquicos conta da complexidade e da diversidade deste “tempo” na vida.

A partir do entendimento que não se pode compreender o adolescente isolando-o do contexto no qual ele vive, torna-se fundamental situá-lo frente às demandas contemporâneas, retomando alguns elementos importantes referentes ao processo de construção do si mesmo. Logo, é essencial que se aborde a relevância da qualidade e das condições referentes às funções também passíveis de influencias frente às demandas próprias do atual contexto intersubjetivo. Esse artigo propõe uma reflexão sobre as condições que marcam o exercício das funções parentais e os efeitos destas na relação com os filhos adolescentes no cenário contemporâneo. Para isso, apresentam-se elementos teóricos que serão retomados a partir da apresentação de uma ilustração clínica. Assim, busca-se ampliar a discussão a respeito das consequências de um tempo marcado por demandas de autocentramento sob a qualidade do exercício das funções parentais que têm em sua essência uma ligação com a capacidade de cuidar do outro. Especialmente frente às demandas de cuidado da adolescência, os ditames de autocentramento parecem fragilizar as relações e potencializar atos de desinvestimento e de descuido, disfarçando-os no discurso parental de respeito à autonomia de seus filhos adolescentes.

Impacto da contemporaneidade na vivência do adolescente

Uma compreensão sobre o sujeito só é possível se este é considerado “imerso no histórico-social, entramando práticas, discursos, sexualidade, ideais, desejos, ideologias e proibições” (Hornstein, 2008; p.17). Logo, refletir sobre temáticas da adolescência significa reafirmar sua implicação com os cenários social, biológico e psíquico nos quais o jovem está imerso.

No acesso à puberdade, a dimensão biológica evidente e as transformações corporais, anatômicas e fisiológicas que contempla e até mesmo a ampliação de capacidades cognitivas, levadas a seu máximo, são facilmente identificáveis e inventariáveis, sendo bastante conhecidas em sua origem, seus mecanismos e sua evolução (Cahn, 1999; p.15). No entanto, afirmar a existência de aspectos “menos discutíveis” não significa desconsiderar as diversidades possíveis quanto a ritmo, desarmonias e implicações destes no plano afetivo. Já no âmbito social, é necessário reconhecer a incidência de variáveis mais complexas. Dessa forma, associam-se e se interpenetram os efeitos da dimensão social e a dimensão psíquica.

No ritmo que marca a passagem do tempo, as configurações da contemporaneidade também trazem a herança de um tempo passado. O sujeito “se encontra em um âmbito de intercâmbio localizado no espaço-tempo, no qual constrói um mundo e por sua vez é construído por esse mundo que constrói” (Lerner, 2006, p.31). Os tempos atuais podem bem ser definidos a partir de conceitos, como “sociedade do espetáculo”, “cultura do narcisismo” e “tempos líquidos”- formulações de Debord (1997), Lasch (1983) e Bauman (2000), respectivamente. Todas essas formulações remetem à ideia de autocentramento e ao predomínio da superficialidade e fluidez dos laços afetivos sustentados na contemporânea sociedade do espetáculo.

A partir disso, Maia (2005) entende que as relações tornam-se formas de alcance do prazer imediato, e, quando há qualquer ameaça de sofrimento, o outro é, rapidamente, descartado. Dockhorn e Macedo (2008) argumentam, ainda, que o desejo, ao invés de se constituir como uma ferramenta de modificação e reinvenção do si mesmo, do social e do mundo, passa a ter uma direção exibicionista e autocentrada, levando a um esvaziamento do espaço da intersubjetividade. Em uma sociedade organizada pelo consumo, a exigência é de estar sempre pronto para o aproveitamento absoluto dos “bens” e para o desenvolvimento de novos desejos frente a incessantes seduções que se apresentam sempre como indispensáveis.

Ao tomar como referência essa imagem social construída para o sujeito, salienta-se o fato de os afetos humanos perderem o seu lugar no mundo contemporâneo. A angústia e a tristeza não podem ser sentidas no ideário pós-moderno, e qualquer sinal destas torna-se uma ameaça a ser combatida por meio de dispositivos que possam neutralizá-las, sejam antidepressivos ou outras drogas diversas (Maia, 2005). A partir da crescente mercantilização de todos os domínios da experiência humana, “vende-se” o corpo, na busca por se tornar o reflexo dos modelos perfeitos e idealizados, e “vende-se” a alma, inundada pelos apelos de psicofármacos, livros de autoajuda e programas midiáticos (Dockhorn e Macedo, 2008). Todas essas características apontam para uma sociedade na qual a ausência de padecimentos ou a completude ilusória acenam como condições passíveis de serem alcançadas.

Esse cenário traz, também, importantes consequências no movimento que possibilita ao adolescente fazer a alternância de desinvestimentos e investimentos que serve como um relevante fator na promoção de seus projetos, metas e ideais, os quais lhe permitem investir em um tempo futuro. Nessa direção, como fica, nesses tempos de pretensa completude, a exigência de não se ocupar da falta justamente por não poder reconhecê-la? E quais consequências têm para o adolescente a constatação que se impõe, a partir da fratura da ilusão dessa pretensa completude, que a posse de bens de consumo promete e não pode cumprir? Assim, o não alcance das metas ou ideais contemporâneos pode rapidamente associar-se a ideias de fracasso e incapacidade. Se a completude é garantia de felicidade, qual o lugar destinado à incompletude humana? Nessa dinâmica, o vazio e o tédio adentram a vida do adolescente denunciando o risco dos frágeis e fraturados investimentos resultantes desses tempos de pressa e consumo. Ao situar-se aquém da proposta contemporânea de completude, impossível de ser atingida independente da existência ou não de capacidades por parte do adolescente, abrem-se condições de expressão de excessos via padecimentos no campo das adições, das transgressões e do imediatismo, os quais, assim como práticas fetichistas, denunciam uma perversidade e uma parcialidade no cenário intersubjetivo.

Os desafios da contemporaneidade deixam, portanto, efeitos no processo de subjetivação adolescente, e, muitas vezes, a desmesura do que o invade expõe a precariedade de suas possibilidades de enfrentamento. A partir disso, Lerner (2006) faz um contraponto, no cenário atual, entre o que denomina dois tipos de adolescentes: o adolescente navegador, dotado de uma plasticidade egóica e o adolescente do descarte ou da desorganização, o qual se situa na esfera das psicopatologias, como depressões, doenças psicossomáticas, fragmentações e adições. Nas palavras do autor, o adolescente da desorganização, ao contrário do adolescente navegador, não pode navegar, tampouco construir, experenciando um colapso em qualquer projeto que inicia. Para que seja viabilizado o inverso dessa configuração de descarte, é importante, segundo Lerner (2006), que o sujeito estruture projetos, arme histórias e, assim, gere um futuro. Adentra-se, dessa forma, o terreno da intersubjetividade, levando em conta a qualidade de relações já experimentadas. O adolescente conta a história de suas identificações e das condições de seu contexto emocional e social de várias formas; uma delas por meio dos recursos psíquicos que dispõe para lançar mão na travessia do mundo infantil para o mundo adulto.

Esse contexto intersubjetivo é de suma importância, uma vez que, desde a infância, o tema do desamparo se faz presente na vida do ser humano. Trata-se de um desamparo estrutural, imperioso diante da inevitável constatação da não sobrevivência sem o encontro com outro humano. Sem dúvida, as possibilidades de metabolização e contenção de experiências no decorrer da vida e suas respectivas cargas de investimento psíquico abarcam a premissa de que tenha ocorrido uma condição de ligação psíquica nos primeiros tempos da vida do sujeito. Sendo assim, pode-se afirmar que as demandas da criança, oriundas de seu desamparo inerente, encontraram no outro deste encontro primordial condições de serem supridas e cuidadas. Dentre tantas atualizações e repetições que a adolescência promove, também está a reedição de uma condição de desamparo. Não é a repetição de um estado anterior idêntico, mas sim de uma possível defasagem entre as demandas e as condições de processá-las. Por isso, se pode associar o tempo da adolescência a um tempo de exigência de intenso trabalho psíquico. Não se trata apenas de elaboração de lutos, reedição da conflitiva edípica, ou da exigência de ressignificar a si mesmo; trata-se, sobretudo, da exigência de situar-se ativamente como sujeito frente a seus conflitos e suas demandas intrapsíquicas. A adolescência alude a uma inquestionável pressão e tensão oriunda de novos processos identificatórios importantes para que se possa estabelecer uma nova modalidade de inserção como sujeito no cenário intersubjetivo. Na repetição de suas conflitivas, o adolescente é exigido no sentido de metabolizar e processar o já experenciado e dar forma àquilo que se apresenta na amplitude de seu campo exogâmico.

A constatação de Lerner (2006), a respeito do naufrágio de um modelo adolescente de não muito tempo atrás, no qual este acreditava ser essencial estar imerso numa cultura de busca de sua identidade e acreditando que devia encontrar sua vocação de uma vez e para sempre, resultou no fato de os adolescentes da contemporaneidade terem de aprender novas formas de navegar, assim como de conviver com a ideia de que o encontro com sua vocação vai ser muitas vezes transitório. No universo do adolescente, antes navegar era chegar a um porto seguro, porém, na contemporaneidade, a navegação é em si mesmo, pois não há promessa alguma de alcançar um porto seguro e abrigado. Isso porque se considera a condição de desamparo não só de recursos internos, mas também na evidência de lacunas deixadas pelas relações com as figuras parentais, que antes representavam esse porto seguro e, no cenário contemporâneo, configuram-se, muitas vezes, como um terreno instável.

Constata-se a importante tarefa que o adolescente tem diante de si: responder aos interrogantes sobre si mesmo, os quais envolvem profundas ressignificações psíquicas e lhe exigem a capacidade de refletir sobre suas condições como sujeito psíquico. Tarefa esta associada a desafios que se intensificam quando a busca se dá na fragilidade das condições de reconhecimento do si mesmo e do outro. Nesse lugar de desamparo, com quem pode o adolescente contar? Retomando a ideia de porto seguro, proposta por Lerner (2006), e partindo das considerações feitas, chega-se, assim, à reflexão sobre o papel das funções parentais na construção subjetiva do adolescente. Tendo as figuras parentais uma influência ímpar no processo de construção da subjetividade de seus filhos, as modalidades de investimentos que habitam esse espaço intersubjetivo não podem ser excluídas de uma reflexão a respeito da adolescência. Logo, é fundamental uma maior compreensão sobre as funções parentais nos tempos de hoje.

Funções parentais em uma ilustração clínica

As demandas pulsionais próprias da adolescência reativam a experiência edípica como uma segunda chance de processar psiquicamente elementos oriundos dessa conflitiva, em especial os referentes a questões de identidade e às modalidades de investimentos do sujeito na relação com o outro. Considerando a importância das relações que o adolescente foi estabelecendo, não só com seus pais, mas também nos outros âmbitos da sua vida, deve-se ponderar sobre as influências desses encontros e do contexto social em que vive.

Pedro é um adolescente de 16 anos que chegou para atendimento por intermédio da mãe que o considerava muito violento, além de apresentar baixo rendimento escolar. Durante o período de avaliação psicológica, Pedro falou sobre sua difícil relação com a mãe e com a irmã, revelando uma situação na qual pensou em matar a irmã e outras nas quais evidenciou ideação suicida.

Ao contar sua história, o jovem revela uma vida marcada pela desorganização e instabilidade das figuras parentais. Seus pais se separaram e passaram a morar em cidades diferentes quando ele tinha sete anos. O adolescente sentia muita saudade do pai e reclamava bastante sobre isso com sua mãe. Depois de um ano, Pedro voltou a morar na cidade paterna, junto com a irmã e a mãe. A mãe diz que deixou o filho, então com 8 anos de idade, decidir se queria ou não morar com ela. Após dois anos, a mãe muda-se novamente para uma cidade distante, deixando o menino com o pai, com a madrasta e com o irmão desse novo relacionamento paterno. Porém, ao saber de uma nova gravidez da segunda esposa, o pai do menino considerou que não poderia mais ficar com o filho alegando dificuldades financeiras. Pedro volta a morar com a mãe e segundo ela, a partir deste fato o filho nunca mais foi o mesmo, se mantendo cada vez mais isolado e tristonho.

Desde pequeno, Pedro era considerado um garoto com problemas, evidenciando traços depressivos. Luísa, a irmã, sempre foi vista como mais autônoma, dinâmica e motivada para alcançar seus objetivos. Desde a infância, Pedro não tem um espaço próprio, não sendo valorizado frente aos pais e à família e experencia uma comparação contínua que o coloca aquém da irmã. Pode-se considerar que deste contexto familiar lhe é oferecida uma imagem fragilizada e debilitada de si mesmo. A forma de Pedro descrever a si mesmo confirma esta hipótese:

Eu não presto para nada, não sei por que meus pais quiseram me ter. Eu ficava lá no quarto chorando que nem um doido, queria me matar, ficava em baixo do travesseiro, pensando: Eu nem deveria ter nascido, eu não sirvo pra nada.

Suabaixa autoestima denuncia a precariedade de investimentos recebidos, demonstra um exercício parental precário e falho em sua função de tomar o outro como objeto de investimento amoroso e de conter as angústias do filho.

A fala da mãe sobre Pedro reforça estes atributos:

Ele sempre teve problemas na escola. A primeira série também foi um ano difícil, praticamente o deixaram passar para ver se ele conseguiria melhorar. Ele foi assim a vida inteira, puxado pelo outro, sempre ia muito mal na escola. A irmã é bem diferente dele.

Desde o nascimento, o sujeito é atravessado pelos enunciados identificatórios oferecidos pelos pais, que vão compondo a noção do si mesmo e do mundo em que vive. Percebe-se que conceber um filho, ocupar uma função de outro que o investe amorosamente é fundamental no processo de constituição psíquica da criança, o que fica evidente no envolvimento com demandas de sua educação e na formação de sua identidade. Logo, o exercício de funções parentais é um constante exercício de investimento e de cuidado sob a modalidade de um compromisso amplo e irrevogável, um compromisso que parece situar-se na contramão da modalidade contemporânea na qual predomina a fluidez e fragilidade dos vínculos.

Muitos pais mostram indisponibilidade de cuidado no sentido da não abertura de espaços em suas vidas frente às demandas de seus filhos (Kehl, 2001). Pedro fala da relação frágil que tem com seus pais, na qual eles parecem centrados em si, tendo dificuldades para abrir um espaço psíquico que acolha as demandas próprias dessa função. Sobre o pai, fica marcada a impossibilidade de acolhimento das necessidades do filho o que gera uma reação intensa no adolescente, confirmando no excesso de seus atos aquilo que esperam dele: o fracasso e a desorganização.

As vivências de desproteção dos indivíduos frente a situações de violência e insegurança social têm seu reflexo no âmbito familiar no qual se perderam a coesão e a comunicação entre seus membros. A fala de Pedro evidencia um ambiente familiar com a força da autoridade parental inexistente ou enfraquecida, além de uma grande instabilidade em relação à experiência dos laços afetivos:

O meu pai me bate até hoje. Só que ele me bate com vassoura. (...) Teve uma vez, eu estava com uma roupa, aí meu pai chegou no quarto e me viu com essa roupa e falou: “Não, tira essa roupa que essa camisa está furada aqui na gola.”. Eu falei assim: Não, pai, está bom assim, dá pra usar ainda. – “Não filho, você não vai sair com essa roupa.”. (...) Eu achei que ele tinha parado, só que ele tinha ido pegar a vassoura. Aí ele chegou e deu uma vassourada nas minhas costas. Quebrou assim: Puf! a vassoura. (...) Achei que ia doer, mas acho que nem doeu como eu achei.

A dor física, frente à dor psíquica de Pedro, perde em intensidade. As formas de comunicação familiar ficam muitas vezes pautadas no modelo de dirigir ao outro a agressividade em forma de ato. Pedro segue esse modelo como uma das vias mais conhecidas de expressão, pois frente ao desamparo pensa em matar ou matar-se.

Birman (2006) entende que os investimentos de cuidado no âmbito familiar foram bastante afetados nos tempos atuais, marcando uma precariedade de investimentos nas crianças e nos adolescentes e, por isso, incidindo diretamente sobre as novas formas de subjetivação. A ilustração clínica denuncia os efeitos de experenciar encontros com figuras parentais que se apresentam de forma precária e falha.

A adolescência de Pedro é marcada por situações nas quais o jovem fica marginalizado seja no ambiente familiar, seja no ambiente escolar, o que dificulta significativamente o estabelecimento de relações consistentes e satisfatórias no âmbito exogâmico. Para que as experiências próprias da adolescência tais como as descobertas sexuais, o estabelecimento de planos para o futuro, a inserção saudável em um grupo de iguais e o distanciamento das figuras parentais possam ocorrer sem que sejam exigidos maiores esforços do adolescente é necessário que conte com uma bagagem que lhe permita distanciar-se e retornar sempre que preciso.

O caso de Pedro ilustra exatamente a impossibilidade de se estabelecer uma relação de confiança e de cuidado para que, depois, o mundo exogâmico possa ser o mundo da experimentação sem riscos desnecessários ao si mesmo. Ao ser cuidado, o adolescente adquire a condição de, posteriormente, cuidar-se. Cabe considerar, em relação ao exercício das funções parentais na contemporaneidade, o quanto o discurso de fragmentação e de abolição de toda condição de assimetria em nome de uma pretensa liberdade, serve ao propósito de não cuidar, de não reconhecer a parcela de responsabilidade inerente a essas funções.

Para que se possa promover alguma mudança neste cenário que compromete significativamente as esperanças no futuro, é urgente uma reflexão que abarque os modelos identificatórios que são oferecidos aos jovens na contemporaneidade. Quando as funções parentais são exercidas em um modelo de sociedade como se elas não aportassem diferenças à vida de seus filhos, é inquestionável a legitimidade da preocupação com os efeitos deste descuido nos espaços de alteridade. Como pensar a construção de valores morais, a fraternidade, os modelos de escolhas amorosas, os ideais sociais e políticos, sem que isso remeta ao convívio e contato entre os sujeitos?

Considerações Finais

Na vigência de tempos nos quais o efêmero, a fragmentação e a frágil ou ausente demarcação de espaços impõem seus efeitos no processo de constituição psíquica e na produção de subjetividades, cabem questionamentos sobre a relação existente entre adolescência e o exercício contemporâneo das funções parentais. Como bem destaca Bleichmar (2005), na atualidade constata-se uma mutação social e cultural que deixou os seres pensantes numa situação de desconcerto.

Na adolescência, pode-se encontrar no amparo e no cuidado recebido via exercício das funções parentais uma vivência fundamental para que depois, em um segundo tempo, o jovem possa experimentar-se em novos investimentos e condições. Pedro ilustra com sua história os efeitos nocivos de vivências de desamparo e descuido parental. Esses efeitos vêm à tona na adolescência, momento no qual o jovem deve enfrentar significativas demandas psíquicas, físicas e sociais.

Frente ao intenso cenário contemporâneo de autocentramento e performance, é necessário refletir sobre a necessidade humana de experenciar a vivência de ter sido tomado como objeto amoroso por um outro. Tal situação continua sendo essencial à produção de sua condição humana, sendo um exercício resultante da capacidade de amar e de cuidar que não pode ser menosprezado. A maior liberdade que a adolescência possibilita ao ser humano não desfaz a necessidade de que o jovem possa contar com o exercício das funções parentais no registro do cuidado e da necessária assimetria que viabiliza a proteção. Deste intrincado jogo de ir e vir em sua história de vida, das oscilações de desejo entre querer crescer e querer se manter criança, resultam os recursos para que um jovem construa, no tempo presente, uma reserva de capital pulsional que lhe permita investir em um tempo futuro, a partir de um existir ético e autônomo.

Referências

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Birman, J. (2006). Tatuando o desamparo: A juventude na atualidade. In M. R. Cardoso. Adolescentes. São Paulo: Escuta.

Bleichmar, S. (2005). Subjetividad en riesgo. Buenos Aires: Topía Editorial.

Cahn, R. (1999). O adolescente na psicanálise: A aventura da subjetivação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Debord, G. (1997). A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.

Dockhorn, C. e Macedo, M. (2008). A complexidade dos tempos atuais: reflexões psicanalíticas. Revista Argumento Psicologia, 54(26), pp. 217-224.

Hornstein, L. (2008). As depressões: afetos e humores do viver. São Paulo: Via Lettera: Centro de Estudos Psicanalíticos.

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Lasch, C. (1983). A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago.

Lerner, H. (2006). Adolescencia, trauma, identidad. In M. C. Rother Hornstein. Adolescencias: trayectorias turbulentas. Buenos Aires: Paidós.

Maia, M. (2005). Extremos da alma: dor e trauma na atualidade da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Garamond.

Rother Hornstein, M. C. (2006). Entre desencantos, apremios e ilusiones: barajar y dar de nuevo. In M. C. Rother Hornstein. Adolescencias: trayectorias turbulentas. Buenos Aires: Paidós.

Notas

1. Psicóloga, Psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS/CNPq). Membro Associado da Sigmund Freud Associação Psicanalítica – Porto Alegre/RS – Brasil. Correo-e: roberta.monteiro@live.com

2. Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Psicologia (PUCRS). Professora Adjunta da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre/RS – Brasil. Correo-e: monicakm@pucrs.br

3. Graduando em Psicologia, Bolsista de Iniciação Científica (BPA/PUCRS). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre/RS – Brasil. Correo-e: gomes.thomas@gmail.com

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